Michele Daiana: Em manutenção

Em manutenção


A chuva me traz uma melancolia boa. Faz lembrar das coisas que se foram e pensar nas que estão por vir. Acordei despreocupada com os efeitos (seriam defeitos?) que a chuva me causaria. Saí abraçando os pingos e o vento. Enquanto sentia a chuva fina geladinha me desviava de qualquer preocupação. Eu estava completamente livre (e sem me preocupar se a escova que fiz no cabelo iria para o beleléu).
De vez em quando sinto algumas falhas. Deve ser porque penso demais. Meu pensamento, apressado, corre a passos largos e intensos. Quase me derruba. Mas eu aguento (ou pelo menos tento). Ando parecida com o mar em dias de fúria: meio mexida. Tudo anda se ajustando e adaptando dentro de mim.
Acho que a vida é uma eterna adaptação. E, frequentemente, me sinto não adequada. Com uma sensação de não pertencer a este mundo. Um mundo maluco, onde as pessoas passam fome, onde atropelam crianças de dois anos sem a menor cerimônia, sem prestar socorro, com desprezo, sem amor. Onde um tenta sempre ser melhor que o outro. Onde as pessoas tentam te puxar para baixo. Onde todo mundo quer se dar bem. Onde existe malícia demais, arrogância demais, maldade demais, cinismo demais.
Às vezes me assusto. É que todo mundo se preocupa com o lado de fora. Eu me preocupo com o lado de dentro. Aquele que mesmo em silêncio grita. Aquele que tenta nos dizer coisas que nem sempre queremos ouvir. Aquele que pulsa, luta, retruca. Aquele que carrega a nossa essência.
Sou vaidosa, mas não deixo a vaidade tomar conta de mim. Não me preocupo com o material. Se você me levar para jantar um cachorro-quente eu vou adorar. É claro que gosto de restaurantes mais sofisticados. Mas não sou uma louca fresca que só fica em hotel de luxo, come lagosta e compra um par de sapatos por dia. Ao invés de consumir loucamente, prefiro comprar comida para o velhinho de cadeira de rodas que fica quase na frente do meu prédio. Prefiro comprar sanduíches e suco para as crianças que ficam pedindo uma moeda de cinquenta centavos na esquina ali de casa.
Cada um tem a sua necessidade. Eu prefiro me doar nem que seja um pouco para os outros. Isso me lembra uma história curiosa. Quando recebi meu primeiro (e baixo) salário saí feliz da vida direto para as lojas. Comprei presente para minha mãe, meu pai e meu namorado. E depois fui em uma creche. Levei brinquedos, leite em pó e pirulitos. Não comprei nada para mim. Pra quê? Não precisava. Eu tinha tudo: família e amor.


Eu me agrado agradando os outros. Pode soar estranho, mas é verdade. Gosto de presentear as pessoas que são importantes na minha vida. Gosto de ver o sorriso delas. Isso faz com que eu me sinta bem de verdade: ajudar desconhecidos e conhecidos. Mas chega um ponto em que me pergunto: por que tudo isso? Antes de dar a mão para alguém a gente precisa se dar a mão. Fico compensando minhas falhas e vazios enchendo os outros de algum afeto. Será que não tenho que olhar mais para o meu lado de dentro? Será que não tenho que me encher de mimos? Não falo de coisas que podemos comprar, falo do invisível.
Por esses motivos ando meio mexida. Pensativa. Refletindo sobre passado, presente, futuro. Vendo o que quero, o que espero para daqui a cinco anos. Quero essa vida que levo hoje? Quero continuar cometendo os mesmos erros? Quero estar com esses mesmos defeitos? O que eu quero exatamente? Ainda não tenho essas respostas. Como eu disse lá em cima: por enquanto, tudo anda se ajustando e adaptando dentro de mim.
Sobre a autora: Clarrissa Corrêa  é escritora e redatora publicitária, gaúcha e escreve na coluna Confusões e Confissões  da revista TPM.

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