Michele Daiana: Texto do dia: Detesto

Texto do dia: Detesto



Odeio reformas. Ficam fazendo aquele barulho implicante que eu cismo em rimar com a minha respiração. Reformas me lembram bagunça, poeira, coisas fora do lugar o tempo inteiro e alergias; me lembram chuva e aquele monte de entulho dificultando a passagem. Eu não gosto de bagunça em lugar nenhum, esse é o meu dilema, porque dentro de mim as coisas andam meio bagunçadas ultimamente. Aquela bagunça nem um pouco razoável, daquelas bem estranhas e chatas de se arrumar. Uma bagunça apenas. Alguns sentimentos estranhos em alguma estante por ali, uma pontinha de ódio aqui, uma dor de cotovelo acolá. Bagunça que eu não vou deixar que arrumem. Vou arrumar sozinha, mesmo que leve um tempo. Imagina se alguém tenta me ajudar e acaba tropeçando em um pedaço de saudade espalhado pelo chão ou morre sufocado com a poeira deixada pela última decepção? Vai ser chato.

É meio perigoso deixar alguém entrar na sua vida e tentar reformar algo, é arriscado demais. E se esse alguém não se adaptar? E se tropeçar e se machucar? E se não conseguir arrumar nada? Melhor nem tentar. É por isso que eu odeio mudar dessa forma - reaproveitando o velho - e tudo que me faça lembrar de pessoas tentando consertar coisas e não conseguindo ou apenas tentando disfarçar coisas com um ajuste aqui, uma tintura ali, um móvel num lugar diferente  - "ah, ninguém vai perceber, vai...". Prefiro coisas novas. Prefiro nada de lembranças, deixa o que é velho pra lá, joga fora.

A pior parte é que, como qualquer coisa na vida, você nunca sabe o resultado final, vai levando de qualquer jeito as reformas que decide fazer ao longo de sua vida. Algumas, você segue adiante, já com outras, você para no meio do caminho. Não sei se é porque somos confusas demais e indecisas demais, vai ver que é isso, mudamos a cada instante e às vezes até esquecemos o que éramos ainda pouco. Além disso, custamos encontrar de fato o que queremos e custamos encontrar a realidade. Ainda assim, quando encontramos, preferimos o sonho.

SOBRE A AUTORA: Aline Bérgamo adora falar (até demais), escrever e sonhar. Leia mais textos no seu blog: Nunca fui miss.

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